Breve História da Biblioteca Central de Marinha
A fundação da Biblioteca Central de Marinha (BCM) remonta a 7 de janeiro de 1835, por decreto da rainha D. Maria II. A monarca considerava a instituição fundamental para assegurar a instrução contínua dos futuros oficiais da Armada, tornando-a a herdeira legítima da Biblioteca da Academia dos Guardas-Marinhas, fundada anteriormente por D. Maria I, em 1802.
Todavia, a BCM herdou somente o propósito institucional, uma vez que o espólio original não permaneceu em solo nacional. Na sequência da transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, em novembro de 1807, cerca de 700 títulos que constituíam as bibliotecas da Marinha foram enviados para aquele território em 1809. Aquando do regresso de D. João VI a Portugal, em 1821, apenas os manuscritos foram integrados na comitiva real, permanecendo o restante acervo no Rio de Janeiro. Quase quinze anos depois, no início de 1835, já sob o reinado de D. Maria II, surgiu a intenção de fundar uma nova biblioteca que colmatasse a lacuna deixada pelo desaparecimento da anterior.
Neste contexto, o primeiro diretor da Biblioteca de Marinha, o Capitão-de-Mar-e-Guerra D. Gastão Fausto da Câmara Coutinho, dirigiu-se ao Depósito-Geral de S. Francisco da Cidade para selecionar as obras que integrariam a nova coleção. Este depósito concentrava o património bibliográfico proveniente dos mosteiros, na sequência da extinção das ordens religiosas em 1834. O Comandante Câmara Coutinho selecionou criteriosamente cerca de oito mil volumes, privilegiando temáticas relacionadas com a navegação, os descobrimentos e as ciências do mar, procurando reconstituir o perfil técnico e científico da biblioteca precedente.
A instituição instalou-se oficialmente no andar nobre do Arsenal da Marinha a 18 de maio de 1845, local onde permaneceria até 1982. Durante este período, a biblioteca esteve anexa à Escola Naval (fundada pela Rainha a 23 de abril de 1845), servindo diretamente as futuras gerações de oficiais da Armada. Ao longo dos anos, o património foi expandido através de aquisições e doações de elevado valor histórico, como o espólio do Vice-Almirante Teixeira da Mota. Durante décadas, a Biblioteca e o Museu de Marinha partilharam não só o espaço físico, mas também uma direção comum.
A 10 de fevereiro de 1960, a instituição passou a designar-se Biblioteca Central da Marinha, adquirindo um regulamento próprio e direção autónoma, sob a dependência da Superintendência dos Serviços da Armada. Com a sua extinção, a unidade transitou para a alçada do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA).
Foi apenas a 8 de julho de 1982 que o acervo da Biblioteca Central de Marinha foi transferido para as atuais instalações, num edifício de traça mais recente integrado na ala nascente do Mosteiro dos Jerónimos. Atualmente, a instituição é uma unidade dependente da Direção Cultural de Marinha, encontrando-se dividida em dois polos: a Biblioteca (BCM-BL), sediada no referido Mosteiro, e o Arquivo Histórico da Marinha (BCM-AH), localizado na antiga Cordoaria Nacional.
Recentemente, a designação oficial sofreu uma ligeira alteração, passando a denominar-se Biblioteca Central de Marinha. No que respeita ao espólio da Biblioteca (BCM-BL), este conta com mais de 60 mil títulos que abrangem temáticas fundamentais para o estudo da História dos Descobrimentos da e Expansão, Astronomia, Geometria, Geografia, Cartografia, entre outros assuntos do mar.
Figura 1 – Salas do Antigo Edifício da Biblioteca Central de Marinha no Arsenal da Marinha, Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais
Figura 2- Depósito da atual Biblioteca Central de Marinha, Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais