A Fragata D. Fernando II e Glória constitui um dos mais importantes exemplos da arquitetura naval portuguesa do século XIX e representa o culminar da construção de grandes navios de guerra à vela ao serviço da Marinha Portuguesa. Construída no Oriente para assegurar as ligações entre Portugal e o Estado da Índia, distinguiu-se pela qualidade da sua construção, pela robustez estrutural e pelas excelentes qualidades náuticas, tornando-se uma das mais prestigiadas embarcações da Armada.
A construção iniciou-se em 1832 no Real Arsenal da Marinha de Damão, um dos mais importantes centros de construção naval portuguesa na Índia. A escolha daquele estaleiro deveu-se à abundância de madeira de teca proveniente das florestas de Nagar-Aveli, considerada uma das melhores do mundo para a construção naval devido à sua elevada resistência à humidade, aos fungos e aos organismos xilófagos, características que aumentavam significativamente a durabilidade das embarcações. A direção dos trabalhos foi confiada ao guarda-marinha construtor naval Gil José da Conceição, auxiliado pelo mestre construtor Yadó Simogi e sob a inspeção do Capitão-tenente Francisco Gomes da Costa. Esta colaboração entre técnicos portugueses e mestres construtores locais demonstra o elevado nível de especialização alcançado pelos arsenais portugueses no Estado da Índia.
O projeto baseou-se nos planos da fragata Duquesa de Bragança, reconhecida pelas suas excelentes qualidades náuticas. Contudo, durante a construção decidiu-se aumentar o armamento previsto de cinquenta para sessenta peças de artilharia, alteração que obrigou ao reforço estrutural do navio. As dificuldades financeiras provocadas pelas Guerras Liberais prolongaram os trabalhos durante cerca de onze anos, sendo a fragata lançada à água apenas em 22 de outubro de 1843. Recebeu o nome D. Fernando II e Glória em homenagem ao rei consorte D. Fernando II e sob a invocação de Nossa Senhora da Glória.
Pelas suas dimensões, figurava entre as maiores unidades da Marinha Portuguesa da época. Armada em galera, possuía três mastros traquete, grande e mezena equipados com velas redondas que lhe proporcionavam um excelente equilíbrio entre velocidade, estabilidade e capacidade de manobra. Esta configuração permitia adaptar rapidamente o aparelho às diferentes condições meteorológicas, tornando a fragata particularmente apta para as longas viagens entre Portugal, África e a Índia. Embora o projeto inicial previsse cinquenta peças de artilharia, o aumento para sessenta revelou-se excessivo durante a viagem inaugural, afetando algumas das qualidades náuticas da embarcação. Após a chegada a Lisboa, a fragata foi submetida a importantes modificações entre 1845 e 1851, regressando, em grande parte, à configuração inicialmente prevista. Ao longo da sua carreira, o armamento variou em função das missões atribuídas, sendo classificada como navio de 44 peças de calibre 32 e desempenhando sobretudo funções de transporte, presença naval e apoio às ligações ultramarinas.
As qualidades náuticas da D. Fernando II e Glória foram amplamente elogiadas pelos oficiais da Marinha Portuguesa que nela serviram. Entre eles destacou-se o Contra-almirante Celestino Soares, que a considerava uma das melhores fragatas da sua geração, reunindo excelentes condições de estabilidade, robustez e segurança. A utilização da madeira de teca conferia ao casco elevada resistência estrutural e extraordinária durabilidade. Mesmo em mares agitados, a fragata mantinha uma navegação segura e apresentava reduzida tendência para embarcar água pelas portinholas da bateria, permitindo conservar maior capacidade de combate do que muitos navios seus contemporâneos. O equilíbrio entre o casco e o aparelho vélico proporcionava igualmente um excelente comportamento em diferentes regimes de vento, tornando-a simultaneamente rápida, segura e fiável.
Estas características explicam a longa carreira operacional da D. Fernando II e Glória e o prestígio que alcançou no seio da Marinha Portuguesa. A robustez da sua estrutura permitiu que, já no final do século XX, fosse objeto de uma profunda recuperação, devolvendo-lhe a configuração histórica que hoje pode ser admirada. A D. Fernando II e Glória permanece, assim, como um dos mais importantes testemunhos da engenharia naval portuguesa e da capacidade técnica dos arsenais do Estado da Índia. Concebida com recurso à excelente madeira de teca e inspirada nos melhores projetos da época, representa o ponto mais elevado da construção portuguesa de grandes fragatas à vela e continua a constituir um dos mais relevantes símbolos do património marítimo nacional.
Fonte: António Emílio Ferraz Sacchetti - livro: D. Fernando II e Glória // Artigo adaptado por Bernardo Duarte, estagiário de comunicação da Direção Cultural da Marinha