O NRP Barracuda (S164) constitui um dos mais importantes testemunhos da história da submarinagem portuguesa e representa uma das capacidades militares mais estratégicas da Marinha Portuguesa. Atualmente instalado em doca seca, no antigo complexo da Base Naval de Cacilhas, em Almada, este submarino integra o património museológico da Marinha, permitindo aos visitantes conhecer de perto a realidade da vida a bordo de um dos mais sofisticados meios navais utilizados por Portugal durante o século XX. Mais do que um antigo navio de guerra, o Barracuda preserva a memória de várias gerações de submarinistas que, durante mais de quatro décadas, cumpriram missões de elevada exigência ao serviço do país.
O Barracuda foi incorporado ao efetivo da Marinha Portuguesa a 4 de maio de 1968, sendo o segundo de quatro submarinos da classe Albacora. Construído em França, este submarino diesel-elétrico foi concebido para operar num contexto marcado pela Guerra Fria, destacando-se pela sua elevada autonomia, capacidade de permanecer longos períodos submerso e discrição durante a navegação. Estas características permitiam-lhe desempenhar missões de vigilância, reconhecimento, recolha de informações e defesa marítima, tornando-se uma peça fundamental da capacidade operacional da Marinha Portuguesa. Ao longo dos seus 42 anos de serviço, o NRP Barracuda percorreu mais de 263 mil milhas náuticas e permaneceu cerca de 52 mil horas no mar, das quais aproximadamente 36 mil em imersão. Durante este período participou em inúmeros exercícios nacionais e internacionais, patrulhas e operações integradas no âmbito da NATO, demonstrando constantemente o elevado nível de preparação das suas guarnições. A capacidade de operar de forma silenciosa e praticamente invisível permitia-lhe aproximar-se de navios e forças navais sem ser detetado, uma das principais características que fazem dos submarinos um dos meios militares mais eficazes na vigilância e proteção do espaço marítimo.
Entre os momentos mais marcantes da sua história destaca-se a realização do primeiro afundamento de um alvo por torpedo efetuado por um submarino português. Durante um exercício militar, o Barracuda intercetou uma embarcação desativada utilizada como alvo e afundou-a com sucesso através do lançamento de um torpedo. Este episódio representou um marco histórico para a Força de Submarinos da Marinha Portuguesa, demonstrando a eficácia dos seus sistemas de armas e o elevado grau de preparação da guarnição. Ao longo da sua carreira participou igualmente em diversos exercícios internacionais onde simulou a interceção de embarcações e ataques a unidades navais, conseguindo frequentemente aproximar-se das forças adversárias sem ser detetado, facto que lhe valeu reconhecimento pela competência e profissionalismo das tripulações portuguesas. Apesar da tecnologia e da capacidade operacional do submarino, é a dimensão humana que mais impressiona quem o visita. A bordo conviviam cerca de cinquenta militares num espaço extremamente reduzido, onde praticamente não existia privacidade. Os corredores estreitos, os equipamentos distribuídos por todos os compartimentos e os beliches sobrepostos evidenciam as dificuldades do quotidiano de uma guarnição que podia permanecer vários dias ou semanas em missão. Uma das particularidades da vida a bordo era o sistema conhecido como "cama quente", em que o mesmo beliche era utilizado por diferentes militares consoante os seus turnos de serviço, permitindo aproveitar ao máximo o reduzido espaço disponível. O posto central constituía o verdadeiro cérebro do submarino, sendo neste compartimento que se concentravam a navegação, o controlo da profundidade, os sistemas de sonar, as comunicações, o periscópio e a direção das operações. Em redor encontravam-se os compartimentos dos torpedos, os alojamentos, a cozinha, a câmara de oficiais e a casa das máquinas, formando um conjunto onde cada espaço desempenhava um papel essencial para garantir o sucesso das missões. A bordo, o espírito de equipa, a disciplina e a confiança entre todos os elementos da guarnição eram fundamentais, pois qualquer erro poderia comprometer a segurança do submarino e da sua tripulação.
Depois de mais de quatro décadas ao serviço de Portugal, o NRP Barracuda foi abatido ao efetivo da Marinha em 2010, iniciando uma nova missão enquanto núcleo museológico. Atualmente, milhares de visitantes atravessam a sua escotilha para conhecer uma realidade pouco visível do público e compreender a importância da componente submarina na defesa dos interesses marítimos nacionais. A preservação do submarino permite valorizar o património histórico da Marinha Portuguesa e transmitir às novas gerações o conhecimento sobre uma capacidade estratégica que continua a desempenhar um papel fundamental na segurança e soberania do país. O Barracuda representa a evolução tecnológica, a capacidade operacional e o profissionalismo dos homens e mulheres que serviram a Marinha Portuguesa. Hoje, silencioso e imóvel, o NRP Barracuda continua a cumprir uma missão de grande importância. Se durante mais de quarenta anos navegou discretamente sob a superfície do mar para defender Portugal, é agora através da preservação da sua história que continua ao serviço do país, permitindo que todos aqueles que o visitam conheçam um dos capítulos mais fascinantes da Marinha Portuguesa e da submarinagem nacional.
Fonte: Edições Culturais de Marinha - livro: Álbum de Memórias - Submarinos em Portugal (1913 - 2013) // Artigo adaptado por Bernardo Duarte, estagiário de comunicação da Direção Cultural da Marinha